O «carola»: visão passadista<br>ou sinónimo de modernidade?

A. Melo de Carvalho

Convém não nos enganarmos: pensar no significado e razão de ser do dirigente benévolo não é uma tarefa simplista e sem valor para a sociedade actual. De facto, o empenhamento do dirigente associativo voluntário assume uma dimensão que ultrapassa largamente o significado do objecto da sua acção – neste caso que nos interessa, o desporto. De facto, o que está verdadeiramente em causa é determinar com rigor o que é que define o sentido da vida do ser humano na nova sociedade «pós-industrial». Isto sem perder a noção exacta da importância real da análise, mas também sem se deixar embalar pela visão pós-modernista que atribui ao mercado a função reguladora primordial, quer para as relações de produção quer para toda a dinâmica social.

O que verdadeiramente interessa é definir o que é essencial para o indivíduo e qual deve ser o significado da sua actividade, para o posicionar como factor decisivo, senhor da transformação da sociedade, em lugar de se limitar a sofrer passivamente as consequências de uma mudança, que lhe escapa nas suas raízes e razões de ser.

Nesta perspectiva, a acção do «carola» assume um significado diferente da compreensão que dele possui a maioria dos dirigentes políticos actuais. Não se trata de negar que o clube desportivo, de bairro ou de aldeia, não possuem problemas que só uma boa gestão dos meios económicos pode resolver. Não se trata até de rejeitar uma visão económica para essa questão, melhor dizendo (tudo está em determinar de que «economia» se está a falar – nós falamos daquela que é habitualmente designada de «social» ou do «terceiro sector»).

Na verdade, esta visão não tem de coincidir com um «espírito empresarial» idêntico à das empresas privadas cuja finalidade expressa consiste sempre na obtenção do «máximo lucro». E reafirmamos o «sempre» porque muitos discursos actuais procuram escamotear esta realidade ao falarem na necessidade da participação activa e convivial, que aponta para uma espécie de «humanismo económico», em que o «amor» entre trabalhadores e empresários constitui a base de uma «revolução cultural» em que o sindicato fica liquidado pelo desaparecimento da luta de classes que é substituída pelo igualitarismo informacional absolutamente hipócrita (basta reparar com é diferente o «pagamento da crise» entre o trabalhador e o seu patrão).

Compreende-se bem como a participação activa «voluntária» e feita de boa vontade aumenta a produtividade da empresa ao liquidar grande parte do conflito básico que sempre opôs o operário (colarinho azul) à administração («antigo» patrão). Mas, naturalmente que este aumento pouco significado tem para o primeiro pois não resolve a questão nuclear que regula a relação de trabalho – quem possui o quê? Quem tem poder para quê?

É bem visível como tudo isto define uma perspectiva bem diferente, se não aposta, daquela que orienta a acção do «carola». Partindo de uma perspectiva em que a solidariedade e o respeito pelo que é mais importante para o indivíduo, procura «gerir» o património gerado pela «boa vontade» e a acção desinteressada, sem contrapartida financeira, colocando-o ao serviço do progresso de cada um e da totalidade da comunidade.

Esta actividade desinteressada constitui o essencial da sobrevivência e afirmação da vida associativa. Mas, uma vez mais, é indispensável centrar com justeza o que isto quer dizer: trata-se de garantir o acesso e o aperfeiçoamento daqueles que pertencem às camadas mais desprotegidas da população (que constituem a sua maioria, é bom não o esquecer) a uma actividade considerada como essencial na vida moderna. Aliás, fundamental, para a formação, a manutenção e a reconstrução da força de trabalho. Mas, mais do que isto, estamos perante um dos factores essenciais para a construção de uma sociedade mais humana e solidária, respeitadora da diversidade dentro do processo igualitário essencial. Naturalmente que estas formas rejeitam tudo aquilo que assenta no individualismo egoísta, na concorrência exacerbada e que, passando por cima do indivíduo, coloca o meio ambiente ao seu inteiro serviço, ao mesmo tempo que faz predominar o espírito de domínio dos mais fortes sobre os mais fracos.

A zombaria tem razão de ser: trata-se de mais uma forma de desvalorizar o que é humano e solidário. Questões que, está bem de ver, nada interessam a quem optou, convicta ou oportunisticamente, por se constituir o porta-voz privilegiado da classe dominante.

Seja como for, é possível verificar como a análise da questão do dirigente associativo a que aqui chamámos «carola» tem de passar, inevitavelmente, pela observação global da sociedade no seu todo. Análise que se quer lúcida e rigorosa, capaz de ultrapassar a hipocrisia dos «cantos de sereia» dos arautos da «nova revolução» industrial, afinal os continuadores conscientes ou não, de tudo o que nas anteriores «revoluções» se afirmou contra a emancipação do ser humano.



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